Ajudando um amigo a entender a crise na Grécia usando como parâmetro uma estorinha contada por Flávio Augusto da Geração de Valor

Idoso chora e é amparado em frente a agência bancária em Thessaloniki; saques foram limitados pelo governo e cartão de débito não é comum entre aposentados (Foto: Sakis Mitrolidis / AFP)

Um amigo me pediu ontem à noite uma opinião sobre a Grécia, na minha rede social Facebook, e me forneceu uma estorinha que pode ser lida no link a seguir:

Eis abaixo a minha resposta, que poderá servir ou não ao meu amigo e a outros possíveis leitores.

Caro amigo (sua identidade foi preservada), o Flávio Augusto é um empresário de tino, muito talentoso, perspicaz e com um poder de persuasão incrível. E tem um detalhe importante, ele mora em Portugal, país que vive numa situação semelhante à Grécia, assim como Espanha, Irlanda e Itália. O que me leva a crer que 1) ou ele desconhece a realidade por lá 2) ou está tirando vantagem da situação e criando dinheiro. CRISE = CRIE $.

Em 1953, logo o período pós-guerra, a Alemanha estava fracassada, falida e endividada e resolveu fazer um acordo entre os países credores, que eram, Grécia, Espanha, Paquistão, Egito, EUA, França, Reino Unido e outros, a fim de que a Alemanha pudesse continuar apoiando estes países e ser um baluarte contra a União Soviética; e eles tiveram encontros em Londres, chamados de “London Agreement 1953” ou “Acordo de Londres de 1953 sobre a dívida alemã”; e estes países credores concederam à Alemanha a anulação de 50% de sua dívida e os outros 50% foi alongado o prazo para 30 anos. O que foi necessário para a Alemanha se reerguer e construir as infraestruturas que precisava.

Agora os alemães estão negando à Grécia, o mesmo que a Alemanha solicitou para os países credores em 1953: perdão de parte da divida e um alargamento de prazo? E que, inclusive, um destes credores era a própria Grécia?

Esta é uma guerra, conhecida como guerra financeira. E os alemães são muito bom em guerras.

Num empréstimo financeiro temos sempre duas partes: o credor e o devedor. Compete ao devedor pagar sua dívida para com o credor e compete ao credor cobrar a dívida do devedor, mas também, avaliar os riscos. O credor é um investidor e todo bom investidor deve avaliar todos os possíveis riscos antes de investir, antes de aplicar o seu dinheiro.

Como sabemos que dinheiro não nasce em árvores, ele tem que ser criado para depois ser transferido ou distribuído. Não se deve criar dinheiro do nada, dinheiro de valor virtual. Mas algumas economias fazem isso. Ninguém cria dinheiro com o intuito de acumulá-lo. Dinheiro deve ter o seu valor real atrelado a alguma coisa real, como garantia. Deve ter lastro.

Se num jogo eu entro com dinheiro de valor virtual e você entra com dinheiro de valor real, ao fazermos uma troca de uma parte do nosso dinheiro, um com o outro, teremos ambos dinheiro de valor real e dinheiro de valor virtual. Se eu não te dou garantias de que este dinheiro de valor virtual possa ser trocado depois por algo tangível, então podemos dizer que você ficou no prejuízo e que eu fiquei no lucro. Mas se somos só dois jogadores, assim fica fácil descobrir quem entrou com dinheiro de valor real e quem não entrou. E talvez você nunca veja seu dinheiro de volta, porque você não prestou direito atenção à todas as cláusulas do jogo. Principalmente se você for um jogador principiante, sem muita experiência com o jogo financeiro.

Mas e quanto ao jogo onde milhões de pessoas estão jogando ao mesmo, a todo instante? Quem entra com o dinheiro de valor real e quem entra com o dinheiro de valor virtual? Em qualquer jogo quem cria as regras leva sempre vantagem. O problema do jogo financeiro é que quem cria as regras do jogo também criam as cláusulas de proteção. Mas para proteger quem? Por isso que costumamos as vezes ouvir: a casa ou a banca nunca perde. Ou: a banca sempre ganha.

Banca ou Banco? Você escolhe.

Recentemente, no primeiro trimestre deste ano, os bancos dos Estados Unidos, tiveram um lucro de quase quarenta bilhões de dólares. E por aqui as coisas não foram diferentes. Apenas em 2014 os bancos Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander tiveram lucro de R$ 60,3 bilhões, o que significa 18,5% a mais que em 2013. Isso também significa que o setor financeiro foi o setor mais lucrativo em todo o mundo, superando a indústria. Sim, superou a indústria que produz algo tangível.

Muitos dos que seguem um líder financeiro se comporta de forma igual aos que seguem um líder religioso: buscam um salvador para os seus problemas, mas não contesta os fatos. Apenas tem uma fé cega no que eles dizem.

E os fatos, ou o que chamo de realidade das ruas, diz que os bancos estão ganhando grandes montanhas de dinheiro, criando enormes fortunas às custas da miséria e pobreza dos povos.

Foi o que aconteceu com a Grécia e que vem acontecendo com Portugal, Espanha, Itália e Irlanda. E o capitalismo neoliberal da União Européia vai fazer de tudo para a Grécia não cair fora da Zona Euro. E todos os demais vão pagar a conta, menos os que criaram as regras do jogo, é claro. E esta situação tende a continuar, até não tiver mais por onde eles arrancarem o último vintém da população.

Mas quem se importa que os povos estejam sofrendo ou morrendo? Desde que eu esteja capitalizando os meus “assets” e gerando lucro financeiro.

Agora a estorinha contada por Flávio Augusto parece convencer certas pessoas incautas. Mas esta estorinha está muito distante da realidade. Ninguém da União Européia andou emprestando dinheiro pelo simples ato de boa fé e camaradagem, como sugere o exemplo dele. A menos que queiramos chamar de “boa fé” as consequências advindas dos empréstimos, que foram as perdas de empregos estáveis, de sua poupanças, de suas economias e muitos gregos perderam suas próprias vidas neste jogo. Há anos que os gregos não têm investimentos em saúde e educação.

Mas logo após a crise de 2008 os bancos europeus tiveram um lucro além do previsto. Mas como isso foi possível se vários países europeus estavam atolados na crise? Graças ao jogo financeiro e de quem dita as regras. Simples.

A tática utilizada por Flávio Augusto em seu exemplo é a do bem e do mal, a mesma utilizada por religiosos. Ele coloca como se a Alemanha fosse a nação do bem, a bondosa, a generosa, a piedosa e coloca a Grécia como a nação perversa, desacreditada, caloteira e fanfarrona. Para ele não deve haver outros cenários, outras variáveis.

Agora imaginem este exemplo:

Uma determinada pessoa quer vender uma grande porção de terra. E resolve fazer a venda pela internet. Coloca belas fotos da propriedade, que tem área para pasto e um bom curral. E coloca o preço, digamos, de um milhão de reais. Só que os interessados na compra deverá fazer um depósito de cem mil reais para poder continuar a negociação. Você faria isso?

Agora digamos que você conhece o/a vendedor/a pessoalmente e sabendo que esta pessoa nunca possuiu tal terra, ainda assim você faria tal depósito de garantia? Você é uma pessoa investidora, sabe que as terras, se existirem, valem o dobro ou mais e como conhece o/a vendedor/a, mesmo nunca sabendo que tal pessoa possuísse tais terras, resolve dar um “voto de confiança”, pois afinal a pessoa é sua “amiga”. Você faria uma transferência internacional via Wertern Union sem desconfiar de nada?

E depois da transferência feita, o/a vendedor/a coloca mais fotos da propriedade, agora com um lindo rio, uma maravilhosa lagoa azul e uma belíssima cachoeira. E você pensa: nossa essa propriedade vale muito mais do que eu imaginava. Só que o/a vendedor/a resolve pedir outros cem mil reais para continuar a negociação. Você pagaria, baseando-se nesta fotos novas atualizadas e sem nunca ter ido no local?

Flávio Augusto acredita que muitos de seus leitores fariam isso. Pois bem, se você diz que pagaria com muito bom grado, saiba que você é do tipo de pessoa que Flávio Augusto e tantos outros “gurus financeiros” estão procurando. E minha recomendação é esta: abandone imediatamente este blog, aqui não é lugar para você. Seu destino é viver nas nuvens, porque o céu é o limite.

Bibliografia:

https://en.wikipedia.org/wiki/London_Agreement_on_German_External_Debts
http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/feb/27/greece-spain-helped-germany-recover
https://www2.fdic.gov/qbp/2015mar/qbp.pdf
http://money.cnn.com/2015/04/14/investing/jpmorgan-chase-earnings-jamie-dimon/
http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/04/18/com-mais-taxas-e-demissoes-bancos-tem-ano-de-lucros-recordes-diz-dieese.htm
http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2015/02/lucro-do-itau-unibanco-sobe-para-r-20242-bilhoes-em-2014.html
http://correiodobrasil.com.br/lucro-de-bancos-europeus-chega-acima-dos-niveis-previstos/

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