Matéria tendenciosa na Veja contra os médicos cubanos

AFP, Evaristo Sa

AFP, Evaristo Sá

Desde que começou a polêmica sobre o programa mais médicos, venho procurando obter informações para poder embasar minha opinião sobre o assunto. E confesso que não tem sido fácil, principalmente para alguém que reside fora do Brasil e por não ter preferência política alguma. Diferentemente da maioria da população brasileira, percebo que as opiniões de muitos indignados com este programa vêm sendo manipuladas através de um viés político. Percebo também que parece já não haver mais, no Brasil, uma política plural e que tudo agora se resume em esquerda e direita.

Sempre acreditei que com saúde não se brinca. Então, para mim, não importa se o médico é deste ou daquele partido político e nem se ele é de esquerda ou de direita. Talvez esteja ai, no viés político, a raiz de toda essa celeuma em torno do programa mais médicos. E acredito que a mídia está conseguindo, mais uma vez, criar mais problemas no lugar de tentar encontrar soluções. Para o doente que necessita de atendimento, o que menos importa é a cor do médico ou a sua nacionalidade.

Recentemente saiu na Veja uma matéria com o título “Medicina de Cuba é cheia de exemplos a não ser seguidos”. Qualquer leitor bem informado sabe que em quase todos – para não citar todos – os países do mundo, a medicina tem exemplos a não ser seguidos. Não é um infortúnio apenas de Cuba, Brasil ou Estados Unidos. Isso também ocorre em países europeus, por exemplo. Mas se focarmos apenas nos exemplos a não ser seguidos, podemos estar denunciando a nossa parcialidade ou o nosso desconhecimento da realidade. E foi o caso da matéria da Veja.

A matéria iniciou assim: “O escorpião-azul (em espanhol, alacrán) é um animal peçonhento só encontrado em Cuba. Desde 1995, cientistas da ilha estudam o seu veneno e garantem que é eficaz no tratamento de vários tipos de câncer. A partir dele, fabricam e comercializam os remédios Escozul e Vidatox.” Para depois ser dito: “No Pubmed, a maior base de dados científica sobre saúde no mundo, não há um registro sequer sobre o tal remédio.” Sabemos que os Estados Unidos e Cuba tem seus problemas políticos. O escorpião-azul só é encontrado em Cuba, como bem disse reportagem. Pubmed é a livraria nacional de medicina dos Estados Unidos. Talvez esteja ai uma possível razão de não se encontrar nada publicado. Pode ser que haja dificuldades nessa pesquisa em particular.Talvez tenha outras razões que não sejam políticas e que desconheçamos. Talvez esse estudo cubano esteja sendo encarado, pelos vizinhos americanos, como uma medicina alternativa, que só recentemente é que começou a aparecer na revista Pubmed, como foi o caso da homeopatia e da acupuntura.

Outro ponto questionável na reportagem da Veja foi dizer que “Outra espécie endêmica na ilha é a medicina avessa às evidências. Submeter os estudos a uma publicação científica é considerado traição à pátria comunista, submissão ao imperialismo americano.” Se fosse verdade isso que estão afirmando, não deveria então figurar nada sobre Cuba na já citada “maior base de dados científica sobre saúde no mundo”, Pubmed, porque lá aparecem – de acordo com nossa pesquisa – 278 entradas relacionadas apenas ao sistema de saúde cubano (Cuba Health System) e quase 10 mil entradas com a palavra Cuba.

Acredito que precisamos rever esses partidarismos políticos e começarmos a olhar com olhos mais críticos para a saúde no Brasil, que está um caos e que vem sofrendo um grande lobby, principalmente por parte das grandes indústrias farmacêuticas. Talvez esteja ai a grande ameaça dos médicos cubanos, já que as principais especialidades deles se encontram na prevenção e no contato mais humano com os pacientes – como já afirmaram os pacientes portugueses em Portugal, que também recebe médicos cubanos. O ditado popular diz que prevenir é melhor que remediar, mas para quem vive ganhando gordas comissões nas receitas médicas e da venda de medicamentos, remediar se torna um grande e lucrativo negócio.

E quanto aos pacientes? Paciência.

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