A Espanha está em crise? Pergunte ao rei Juan Carlos.

A Europa está em crise. Esperem, a Europa? Mas como? Não é na Europa onde se têm as melhores universidades do planeta? Por acaso nestas universidades não se formam administradores e economistas? Parece até uma piada dizer que a Europa esteja em crise, mas é uma triste e dura realidade. Recentemente, passei o natal e a virada do ano na Espanha e pude assistir o discurso do rei Juan Carlos, onde se dizia estar preocupado com as altas taxas de desemprego daquele país e que se sentia triste ao ver que muitos espanhóis estariam vivendo abaixo do “umbral de la pobreza”, de que muitos espanhóis estariam deixando o país para tentar uma vida melhor fora da Espanha. Justo a Espanha, o país que mais crescia dentro da zona do euro. O país que me havia dado oportunidades de emprego e que tinha um dos menores índices de desemprego da comunidade europeia.

Ainda em 2012, Don Juan Carlos, como é conhecido na Espanha, esteve envolvido num escândalo nacional (para mim, um escândalo também internacional). Ele sofreu um pequeno acidente enquanto estava de “férias” por Botsuana e teve que interromper sua viagem para retornar à Madrid e ser operado no quadril. Porém, este acidente acabou o denunciando sobre os reais propósitos de sua viagem, que era caçar elefantes. Na internet pode-se encontrar fotografias do rei posando ao lado de um elefante e de dois búfalos, ambos mortos. Mas que ironia ao ver Don Juan Carlos, o representante da Espanha, posando ao lado destes infelizes animais, que tiveram suas vidas ceifadas por um simples esporte, que é a caça de animais exóticos dos safáris de luxo. A ironia está no fato de saber que o povo espanhol, em sua maioria, luta contra o abuso dos animais. Enquanto o rei caça búfalos por puro prazer egoísta, seus cidadãos vêm conseguindo acabar com as touradas no país, um esporte em que, quase sempre, termina com a morte de algum touro.

Mas irei tentar deixar de lado, por um momento, o apelo sentimental que me invade, ao ver esses animais que são sacrificados por puro prazer egoísta e vou procurar concentrar-me na crise europeia. Foi também na Espanha, nestes dias que por lá estive, que pude assistir o programa “El intermedio” do canal “La Sexta”, da televisão espanhola. Neste programa, que faz duras críticas ao governo espanhol, foi realizada uma entrevista nas ruas, onde era perguntado em distintos bairros, bairros de ricos e bairros de pobres, como a crise os estavam afetando, quais eram os presentes que davam, o que se comiam, se tiveram que reduzir os gastos em viagens e coisas do tipo. O mais curioso para muita gente, era as respostas dadas pelos entrevistados. Os pobres respondiam sobre os cortes que iriam ter que fazer, contando como diminuir os gastos aqui e ali, para ter o que comer e teve, inclusive, uma senhora que chegou a dizer que já levava mais de 4 meses sem comer um bom filé de carne.

Entretanto, alguns ricos espanhóis, nesta mesma entrevista, diziam que não estavam sendo afetados pela crise e que estavam vivendo melhor agora, justamente nesse período de recessão em que passa a Europa. Voltemos agora, novamente, ao rei de Espanha. Vejamos que, enquanto o país atravessa uma crise, onde mais da metade dos jovens espanhóis estão desempregados, onde a cada dia mais pessoas estão indo ter que morar nas ruas por não ter como pagar a hipoteca da casa, onde cresce o número de famintos e pessoas que vivem do que encontram nas latas de lixo, o rei deles estava num safári de luxo, onde uma excursão de 10 dias chega a custar algo em torno de 60.000 dólares, pouco mais de R$120.000,00. Esse fato causou uma indignação na população espanhola e foi um assunto muito discutido nas redes sociais, o que levou alguns a questionar o fim da monarquia e sugerir a implantação da República na Espanha.

Sempre gostei da sabedoria popular. Gosto muito de ouvir os mais velhos, para poder tirar algumas lições de suas experiências de vidas. Outra coisa que gosto muito de observar, é a natureza, pois nela podemos encontrar várias respostas para a grande maioria, se não de todos os problemas que enfrentamos. Na natureza, nem todas as plantas dão frutos ao mesmo tempo. E cada ano tem suas estações próprias. Qualquer homem do campo, ao observar a natureza, sabe o momento certo para plantar e colher. E sabe também se precaver para as épocas de estiagem. Recorrendo agora à sabedoria popular, há um ditado que diz: “não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe”. Apenas por esta frase, fica fácil entender a verdade que nela está contida. A fase boa da Espanha passou. A “década dourada” (1995-2007), que viviam os espanhóis antes da crise de 2008, já não existe mais. O que resta agora é a triste e amarga situação dos que não souberam aproveitar a “fase gorda” da economia. Mas nem tudo está perdido. Como o próprio ditado também diz, não há mal que nunca se acabe. Se a “década dourada” passou, agora é se preparar para enfrentar a década de recessão (2008-2020, na minha previsão mais otimista). Na verdade, devemos nos precaver da recessão justamente quando estamos vivenciando a nossa melhor fase, que é a fase das “vacas gordas”.

Nessas épocas de crise, ou épocas de menos fartura, somos forçados a aprender as regras básicas da economia: que é gastar menos daquilo que recebemos. Que é comprar justamente o que é necessário, evitando o desperdício e o supérfluo. Infelizmente para o povo espanhol, seus monarcas não precisam se preocupar com economia, pois estando bem ou mal o país, eles, os monarcas, não deixam de prescindir de suas viagens de luxo, da boa comida, dos hotéis caros e toda uma série de regalias e privilégios que vivem à custa de seu povo, que é quem os mantém. No final das contas alguém sempre sai lucrando com as crises e devemos aprender com eles, os mesmos mecanismos, para passar por esta má época como se ela nunca existisse. Nos países onde se neva, todo camponês sabe que a lenha se junta antes da chegada do inverno e que não é preciso estudo de economia e nem de administração para entender algo tão simples.

Fontes:

http://goo.gl/UARs5

http://www.iese.edu/research/pdfs/OP-0193.pdf

http://www.rannsafaris.com/rates-info.html

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