Aulas de economia

Minhas primeiras aulas de economia começaram há pouco mais de 30 anos. Por uma questão, também, de economia, tive que passar, na minha infância, uma parte do meu dia com minha avó materna, já que meus pais necessitavam sair para trabalhar. Fui aprendendo com ela, umas das primeiras lições mais imprescindíveis da vida de qualquer ser humano, que é a arte de poupar. Mas a minha “vózinha” poupava demais, economizava até na margarina que era colocada no pão do café da tarde. Talvez seja por isso que até hoje não encontrei nada que pudesse substituir a margarina da minha avó, não encontrei algo que substituísse nem mesmo nessas lojas de delicatessen aqui da Europa. A margarina da casa da minha avó tinha um sabor especial, que perdura até hoje em minhas doces lembranças.

Mas minhas aulas de economia não se resumiam apenas à margarinas não. Minha avó também gostava de guardar os potes dessas margarinas, suas embalagens. Guardava embalagens de quase tudo. Sempre tinha um potinho ou um vidro vazio, esperando para algo fosse colocado dentro, na oportunidade certa. Com o passar dos anos, a medida que eu ia crescendo, foi surgindo novos produtos, como as sacolas plásticas e as embalagens tapewares. Lembro que alguns de meus tios traziam esses novos produtos, na iminência de que minha avó se desfizesse daquele monte de embalagens que ela guardava. Ledo engano. Ela era fiel aos princípios da economia, era uma “dama de ferro” da economia da nossa família, que, aliás, não ficava atrás da dama de ferro daqui da Inglaterra. Pelo menos no meu conceito, não.

Com o passar do tempo, fui tendo aulas de economia no colégio, mas que nada se assemelhava às aulas de economia que minha avó ensinava. Cheguei a duvidar de seus belos ensinamentos, mas aos poucos fui percebendo que ela é quem tinha razão. Minha avó não tinha lá muito estudos, mas era boa em matemática. Dificilmente alguém a passaria para trás nos trocos. Também pudera, como somente o meu avô é quem trabalhava e o pouco do dinheiro ganho com a profissão de pintor de automóvel que recebia, tinha que durar para sustentar e educar seus doze filhos; portanto, cada centavo contava muito. Um descuido ou um cálculo mal feito, por parte da minha avó, poderia ter consequências mais sérias. Se tem uma coisa que tira o sono de qualquer mãe, é não ter o que pôr na mesa para seus filhos comerem.

Hoje vejo profissionais de curso superior de economia, que gastam mais do que recebem. Alguns, sem filhos e, que mesmo assim, com salários superiores ao que meu avô ganhava na época, não conseguem chegar ao fim do mês. Sendo então, forçados a contrair dívidas, cada vez maiores, nos diversos cartões de crédito. Se esses ensinos atuais são superiores, será que então as lições de economia da minha avó é que eram inferiores? Acho que precisamos rever esses conceitos. Felizmente, alguns já vêm se despertando para esta realidade e já não mais se deixam seduzir por essa modinha do: gastar, gastar, gastar, consumir, consumir, consumir.

Minha avó já não está mais no nosso meio físico. Mas as lições deixadas por ela, ainda fazem eco no viver de alguns filhos e netos. É, portanto, mais do que certo, que as verdadeiras lições deixadas por nossos mestres e professores, não morrem jamais. Na verdade, queria que ela estivesse aqui, para poder dizer-lhe que consegui compreender o que ela queria nos ensinar, mesmo achando, muitas vezes, que ela estivesse errada. E direi no momento oportuno. Mas o mais importante agora, é a lição aprendida que ela me proporcionou e como transmitir isso para outras pessoas. E estou tão feliz, que meus sentimentos se traduzem em lágrimas. E como é bom chorar de felicidade!

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